'Metralhadora' e 'sádico' são tipos de invejosos; veja outros e saiba lidar com esse sentimento

27/10/2011 23:13

Todo mundo sabe o que é inveja: aquela raiva lancinante, que chega a doer, ao desejar o que é de outra pessoa. É ruim sentir inveja. E a sociedade condena quem a tem. Por que? O invejoso e invejado Napoleão Bonaparte (1769-1821) dizia: "A inveja é uma declaração de inferioridade". O invejoso é incapaz de celebrar o sucesso alheio, pois realiza uma comparação imediata, na qual sempre sai perdendo. Apesar disso, é um sentimento natural e corriqueiro. "A pessoa sente dificuldade em lidar com a própria impotência e não aceita a frustração", afirma a psicóloga Marta Rita Leopoldo, especialista em terapia junguiana e pós-graduada em neuropsicologia.

A especialista diz que todos nós, de vez em quando, sentimos algum nível de ressentimento ao ver que outros conquistaram coisas que nós ainda não conseguimos. E, às vezes, jamais conseguiremos, como usar manequim 38, ter um carro importado ou ocupar um cargo cobiçado. Porém, a inveja pode de se transformar em motivação, se você resolve economizar para trocar de carro, depois de ver o automóvel novinho e cintilante do amigo, por exemplo. Inaceitável, porém, é ser refém da inveja, a ponto de descuidar da própria vida.

Marta Leopoldo afirma que uma das chaves para compreender essa emoção tão nociva é o passado. “Crianças que não se sentiram amadas, seguras e, principalmente, admiradas por seu pais têm grande chance de se transformarem em adultos invejosos". Na cabeça deles, é como se somente o que os outros possuem têm valor ou importância. Há pessoas que, para camuflar essa sensação, tornam-se consumistas compulsivas e se endividam de maneira drástica. O consumo seria uma forma de obter status e aplacar a inveja.

Tipos de inveja
Uma invejinha leve pode acometer qualquer pessoa, em algum momento da vida. No entanto, isso não significa que o sentimento perdurará. “Ela afeta o indivíduo de modo superficial. Embora ele se sinta incomodado com o sucesso e a felicidade alheios, esse incômodo não é forte o suficiente para mobilizar suas ações e seus pensamentos por muito tempo”, explica o psicólogo Alexandre Bez, especialista em relacionamentos pela Universidade de Miami e ansiedade e síndrome do pânico pela Universidade da Califórnia.

A inveja moderada inclui um sentimento de injustiça –por que o outro tem e eu não?– e leva a tentar constranger, humilhar ou diminuir o outro para se sentir melhor. Quem a carrega, em geral, é inseguro, com baixa autoestima e não enxerga o próprio valor. "Existe, ainda, a inveja severa, patológica, que segue os comandos de uma estrutura mental psicótica", diz Alexandre, autor do livro “Inveja – O Inimigo Oculto” (Ed. Juruá). Dono de uma lógica distorcida e doentia, esse invejoso não mede esforços para prejudicar o alvo da inveja. Sua mente perturbada pode conduzi-lo a atitudes extremas, por isso exige acompanha

Se você se sente mal em relação a alguém, tente analisar o que aquela pessoa tem que lhe faz falta”, afirma a psicóloga Marta Leopoldo. Em muitos casos, o bem nem é material. Pode ser uma característica de personalidade, como extroversão e senso de humor. Então, pergunte-se como obter ou desenvolver aquilo que te incomoda, mas você gostaria de ter ou ser.

 

A inveja é sempre problema de quem tem. Então, em vez de sair por aí dizendo que o seu santo não bate com o de fulana, que não vai com a cara de sicrano ou que beltrano te perturba, tome o sentimento para si. Disfarçar o que sente só vai tornar a emoção ainda mais recalcada.

“Guardar a inveja para si mesmo só alimenta e faz crescer o monstro”, diz a psicóloga Marta Leopoldo. Deixe a vergonha de lado e abra seu coração para uma pessoa de confiança que seja alheia à história. Você vai ouvir outro ponto de vista. E falar diminui o peso dos fatos.

Tenha fé em si mesmo. “Em vez de reclamar sobre aquilo que não tem, concentre-se em tudo aquilo que você já tem”, diz a psicóloga Marta. Uma boa ideia é trabalhar com listas: escreva uma sobre suas qualidades, outra sobre as coisas que almeja e a terceira sobre o que pode fazer para conquistá-las.

Enquanto seu olhar estiver direcionado para o que acontece na casa do vizinho, sua vida não vai para frente. Vamos supor que você não seja psicopata, mas sua inveja tem uma força maligna capaz de destruir o novo apartamento da sua prima. O fato de ela perder o imóvel vai fazer a sua vida melhorar? Não. A inveja nociva é inútil.

Pare de concorrer inutilmente com os outros... Que tal competir com você? Tente superar as próprias vitórias. Em vez de reclamar que seu colega ganha mais do que você, trace estratégias para conseguir um aumento de salário. Outro exemplo: reclamar que a secretária da empresa usa roupas curtas demais para exibir as pernas não torna ninguém mais magro. Entrar para a academia, sim.

Sabe aquela brincadeirinha de imaginar que uma mulher tão bonita como a Gisele Bündchen não pode ser perfeita, já que provavelmente tem caspa, mau hálito ou chulé? Faça o mesmo quando perceber que está começando a sentir inveja de alguém. E use seus devaneios também para pensar coisas positivas, como o esforço alheio para conquistar algo. Valorizar o merecimento minimiza não só a cobiça como é o primeiro passo para começar a ir à luta também.

1. Não sinta culpa por suas conquistas. Os invejosos se alimentam dela;
2. Não fale sobre projetos ou planos antes que se concretizem;
3. Não alimente a inveja alheia, alardeando o que fez ou o que deixou de fazer;
4. Não se vanglorie se souber o motivo pelo qual é invejado;
5. Neutralize a pessoa invejosa, elogiando-a e chamando sua atenção para seus pontos fortes.

 
  • Stock Images

Língua venenosa e afiada
De acordo com o psicólogo argentino Bernardo Stamateas, autor do livro “Emoções tóxicas – Como Se Livrar dos Sentimentos que Fazem Mal a Você” (Ed. Thomas Nelson Brasil), as pessoas invejosas dão vazão ao seu rancor através das palavras negativas ou depreciativas, que usam para tentar destruir aquilo que cobiçam. Por gastarem tanta energia nisso é que acabam não conseguindo coisas boas para a própria vida. Veja os tipos de linguarudos listados pelo especialista, como agem e suas frases mais comuns:

TIPO DE INVEJOSO OBJETIVO FRASE TÍPICA
Sádico-sarcástico Humilhar quem teve uma ideia ou se saiu melhor em algo. "Você poderia ter perguntado qual é a flor favorita da mamãe antes de trazer uma"
Tiro na cara Fazer o outro se sentir mal. "Nossa, o que aconteceu? Você está com uma cara acabada!"
Metralhadora disparada Desqualificar conquistas e méritos. "Então você passou no vestibular, hein? Pena que a faculdade seja tão pouco qualificada nessa área."
Doce assassino Esquartejar a paciência ou a autoestima alheia, devagarzinho. Frase: “Olha, preciso dizer algo que vem me incomodando muito. Não sei se você vai gostar, mas...”
Intrometido Ocultar informações sobre a própria vida e fingir que quer ajudar para descobrir coisas. “Ouvi sua conversa sem querer Você vai mudar seu filho de escola? Tenho nomes ótimos para indicar... Mas o que houve?”
Eu não Criticar de modo sutil. "Não tenho nada contra usar roupas casuais no trabalho, mas você não acha que a sua saia está curta demais?”
Eu-eu Parecer melhor, minimizando as ações do outro. "Não acredito que você esteve em Paris e não foi naquele restaurante incrível que indiquei!"
Observador Mostrar que tem razão. "Viu? Eu bem que avisei!"

 



Será que a culpa de seus problemas é da inveja alheia

  • É preciso encarar os fatos com honestidade e perceber se o problema está mesmo na inveja dos outros

É preciso encarar os fatos com honestidade e perceber se o problema está mesmo na inveja dos outros

Você acaba de comprar um carro zero e conta a novidade para todos os seus conhecidos. Mas, ao sair da garagem para o primeiro passeio, já dá uma ralada no portão. “Só pode ser inveja!”, você pensa. Ou está no meio do expediente e, do nada, bate um desânimo. “Alguém colocou um mau olhado em mim”, é sua única explicação.

Responsabilizar os sentimentos alheios por seus erros ou problemas parece ser uma solução fácil e sensata, mas não é. O ideal é investigar por que cada acontecimento ruim acontece. Para isso, o primeiro passo é entender que a inveja não age. “Muita gente se sente perseguida pela inveja. Mas o sentimento do outro não prejudica ninguém, o que prejudica é a atitude. Quem se vê alvo desse sentimento perde o foco. A pessoa fica tão insegura que passa a olhar na direção contrária de seus objetivos e se descuida do que antes era importante”, explica a psicóloga Roseana Ribeiro, de São Paulo.

A inveja é toda sua

E o que leva alguém a tornar a inveja o vilão de seus problemas? Uma das explicações é que quem se preocupa demais com o assunto é que pode estar desejando o que é do outro – e se sentindo mal por isso. “No fundo, ninguém gosta de ter inveja, pois ela é uma espécie de prova de fracasso, falta, inferioridade”, diz Dorit Verea, psicóloga da Clínica Prisma, de São Paulo. O repúdio a este sentimento gera culpa, explica Roseana. Para se defender deste sentimento ruim, a pessoa tenta justificá-lo por meio do outro: atribui a ele a inveja e, assim, abranda suas próprias emoções.

Ou seja: será que você é mesmo invejado ou deseja estar nesta posição? Acreditar ser o alvo da cobiça alheia dá certo sentimento de superioridade. A pessoa acredita que o outro está em uma fase ruim e comemora intimamente sua “desgraça”. “O invejoso precisa se sentir invejado para suportar a frustração de não ter o que o outro tem”, explica o psicólogo e escritor Alexandre Bez, autor do livro “Inveja – O Inimigo Oculto” (Editora Juruá).

Veja a seguir o que se passa por trás do comportamento de culpar a inveja por todos os males. E veja a dica de especialistas para não cair mais nesta cilada.